A cada ano a sociedade tem mais motivos para comemorar o oito de março, Dia Internacional da Mulher. Essa não é uma visão otimista, mas, sim, realista. Basta tomar como exemplo o cargo mais alto que pode ser alcançado no País, a Presidência da República. Pela primeira vez na história do Brasil, uma mulher está no comando de 190 milhões de pessoas.
A chegada de uma mulher à Presidência poderá ressuscitar a Proposta de Emenda Constitucional 196/07, em tramitação no Congresso, que reserva uma cota mínima de 30% dos cargos em comissão na administração pública, bem como outros projetos do gênero que hibernam em Assembléias Legislativas.
Não há pioneirismo nessas iniciativas, já que outros países, como Noruega, França e Espanha, já aprovaram leis que obrigam as empresas, estatais e privadas, a destinar até 50% das posições de diretoria a mulheres. Mas seria uma solução?
Mesmo sem cotas, cada vez mais as mulheres estão ocupando postos de gestão nas empresas privada e na administração pública. Cerca de 37% das posições de chefia em empresas estão nas mãos delas, segundo estudo da USP – Universidade de São Paulo em 2009. O Brasil avança, mas ainda há discriminação contra a mulher no mercado de trabalho.
A imposição de cotas é altamente polêmica, pois, se favorece a diversidade, valor que a sociedade passou a cultivar e defender, não reconhece o mérito, principal critério valorizado pelas empresas na hora de contratar ou promover. No ambiente corporativo, a exigência de cotas pode comprometer a qualidade da gestão e a eficiência.
O que de fato pode fazer a diferença é dar oportunidades iguais a todos, com políticas de gestão eficientes, desde a contratação do estagiário e do trainee, até o momento das promoções. Hoje, a proporção de mulheres capacitadas a ingressar e progredir no mercado de trabalho é próxima à de homens.
Segundo dados do Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, entre as 826.928 pessoas que concluíram o ensino superior em instituições brasileiras em 2009, 59% (ou 485.961) eram do sexo feminino. Ou seja, o número de mulheres formadas supera o dos homens em 144.944. Nos cursos de MBA, metade das cadeiras foi ocupada por mulheres em 2010, segundo informações da FGV – Fundação Getúlio Vargas.
A oferta de profissionais com talento necessário para cargos de chefia será cada vez mais equilibrada, pois as mulheres já têm oportunidades de estudo e formação equiparadas às dos seus pares masculinos – coisa que não acontecia décadas atrás. Portanto, as companhias não poderão privilegiar o gênero em detrimento da capacidade, na medida em que correm o risco de selecionar perfis equivocados para suas posições de liderança, e o equilíbrio será alcançado naturalmente.
Para buscar o equilíbrio, as empresas devem promover uma revisão da maneira de se avaliar e selecionar as pessoas, sem idéias preconcebidas e sem se deixar influenciar pelos estereótipos (“mulher é assim, homem é assim”). Muitas vezes, a avaliação e a seleção são tendenciosas, porque quem avalia está contaminado pelo preconceito, por sua maneira peculiar de ver o mundo, as relações entre homens e mulheres, por exemplo. É o caso do executivo que prefere contratar homem porque acha que a maternidade pode afetar a produtividade da mulher ou limita sua capacidade de trabalho.
Patrícia Epperlein é sócia diretora-geral da Mariaca, uma das líderes em gestão de capital humano do País, e CEO da InterSearch Worldwide, associação que reúne grandes empresas de recrutamento de executivos do mundo inteiro.
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